Na Mooca, Zona Leste de São Paulo, a história trágica de Alice Vitória, que faleceu aos 11 meses após complicações em uma cirurgia no Hospital Salvalus, levanta sérias preocupações sobre a segurança e a qualidade do atendimento infantil na unidade, que pertence à rede Hapvida do grupo NotreDame Intermédica.
A assistente social Leticia Ferreira levou a filha ao hospital em busca de um procedimento essencial: a gastrostomia, que substituiria uma sonda nasoenteral que a menina usava desde o nascimento devido a dificuldades de deglutição. O que deveria ser uma internação de cerca de uma semana se transformou em um pesadelo repleto de complicações, incluindo infecções e paradas cardíacas que culminaram na morte de Alice em abril deste ano.
De acordo com a certidão de óbito, as causas da morte foram sepse com foco pulmonar e insuficiência respiratória aguda. Durante a internação, Alice enfrentou uma série de adversidades. Após a cirurgia, sua condição respiratória piorou, levando-a à UTI, onde não conseguiu ser extubada. A situação se agravou ainda mais quando a sutura da gastrostomia se abriu, exigindo uma nova cirurgia, que resultou em uma parada cardíaca.
Leticia, em entrevista ao g1, expressou sua angústia ao perceber que as complicações não eram normais. “Não é normal… Aí tem a ver com alguma outra questão de organização, de higiene,” lamentou, ao mencionar a quantidade de infecções que sua filha contraiu durante a internação.
O caso de Alice não é isolado. A Polícia Civil está investigando um total de seis mortes de crianças que passaram pelo Hospital Salvalus, todas com idades entre zero e três anos, e que teriam morrido em decorrência de infecções hospitalares. As investigações incluem a coleta de depoimentos e a análise dos prontuários médicos para verificar possíveis falhas no atendimento.
A assistente jurídica Eduarda Fragnan Gomes, que representa várias mães que perderam seus filhos sob circunstâncias similares, afirma que pelo menos 19 famílias estão lidando com a dor da perda em um espaço de apenas seis meses. “Esperamos que tudo seja esclarecido, que as mães tenham o que estão procurando, que é um pouco de conforto em meio a tanta dor,” disse.
O Hospital Salvalus, por sua vez, afirmou em nota que ainda não recebeu notificações formais sobre as alegações e que está à disposição das autoridades. A instituição ressaltou que as avaliações realizadas até o momento indicam que não há uma causa infecciosa comum entre os casos investigados.
A dor e o desespero de Leticia Ferreira refletem um sentimento compartilhado por muitas mães na comunidade, que se veem diante de uma tragédia e buscam respostas. “A gente se culpa por coisas que não tem culpa,” desabafou Leticia, enquanto aguardava uma investigação que traga clareza e justiça a tantas famílias afetadas.



